A pele desfaz-se em cinzas perante o calor do teu toque. Escama e rebenta perante a ausência. O silêncio torna-se uma melodia difícil de escutar e tudo dói. Quero que deixe de doer. Quero que deixe de custar inspirar. Quero que... Quero esquecer. O impossível. O doloroso. O... impossível. Quero que a angústia desapareça. Não consigo tolerar mais. Quero fugir. Quero submergir e naufragar. E não derivar mais. Apenas ficar esquecida e fundida por entre mar. Despeço-me. Porque o amanhã... o amanhã não irá chegar.
Aqui me despeço. De ti. De mim. De um esboço não definido, incorpóreo, e que apenas existiu por ser imaginado única e exclusivamente por mim. Aqui me despeço. Das memórias mal interpretadas por mim. Dos momentos recordados indefinidamente, infinitas vezes, por mim. Mas, que no final de contas, nada significaram. Aqui me despeço. Do tempo. Da saudade. Da tristeza desmesurada. Estou louca. Só poderia estar a enlouquecer, numa inércia sentimental que me faz querer.. Não importa. Interpretei um filme de indiferença como uma espécie de suspense romanceado, se assim se poderá dizer. E... mente tramada a minha. Por isso, aqui me despeço. De uma mente demasiado fértil para momentos soltos e insignificantes, magnificados por uma poesia mal corrida que não foi escrita num papel timbrado, nem assinado com uma caneta de tinta permanente. Aqui me despeço. Da minha insanidade. Dos fragmentos que, por momentos, me fizeram acreditar num final diferente, para um livro cujo o final já estava mais que escrito e re-escrito, lido e re-lido. Aqui me despeço. Contento-me a ser somente vestígio acéfalo para não voltar a sentir, a pensar, a imaginar. Contento-me em ser oca. Em não me permitir existir. Porque... é mais fácil. E mais sincero. E mais real. Aqui me despeço.
Por entre desassossegos penosos em que a alma estrebucha e se recusa a penar mais do que o estritamente desnecessário.
Irrompem silêncios que transbordam de uma terrível e tremenda... angústia.
Gostava de fechar os olhos. Deixar tudo para trás. Deixar a perda e o ganho e a mágoa para trás. E fugir. Deixar o pensamento. Deixar o tormento. Deixar esta terrível e tremenda... angústia.
Subitamente respirar custa. Subitamente aguentar o corpo e fazê-lo mover-se por entre corredores de rotinas inúteis custa. Subitamente esta terrível e tremenda angústia... custa.
E se, pelo menos, eu pudesse fechar os olhos.
Creio que se torna complicado descomplicar uma situação já de si em pouco ou nada descomplicada.
E se... eu desaparecesse... e para trás ficasse esta... terrível... e tremenda... angústia?
Sei que se... o volume estiver alto (demasiado alto), a voz for forte (demasiado forte), e as batidas e guitarradas forem irritantemente potentes (demasiado potentes), a mente desacelera, abranda, remexe.... e pára. E eu respiro. Fundo (não suficientemente fundo, mas fundo o suficiente para me afundar no silêncio que me ampara nuns braços nus, crus e gélidos).
Sei que se... o horizonte estiver longe (demasiado longe), o sol fraco (demasiado fraco), e o céu se deixar manchar por névoas congeladas de fragmentos de cinza e escuridão (demasiadas névoas), a visão turva e desampara a mente num embate seco e mudo num chão sem pouso, e estilhaça as réstias de desumanidade humanamente irritante e potente e gélida e...
Divago num texto ausente de sentido e tudo o que me resta é suplementar o ruído de fundo com a auto-colocação num palco imaginário onde quem aumenta o volume alto, perpétua a voz forte e toca as guitarradas irritantemente potentes sou eu, e me deixo fundir numa perfeita e somente só névoa enregelada ausente de mente e pensamento.
Deixo-me afundar. E a escuridão e ausência de barulho são o elixir que tanto precisava. Somente para que o demasiado seja um prego no meu caixão a que chamam vida.
Porque sei que se... Jamais respirarei fundo o suficiente para colapsar numa inexistência ausente de sentido.
Sobre o amor. A vida. E a morte. O fim da vida. A mágoa e a dor.
E do nada desabou. A alma cedeu. A fortaleza desvaneceu. E o sufoco se ergueu.
Aquele aperto. Aquele nó na garganta. Aquela necessidade de respirar, mas cujo oxigénio não surge num espaço onde a solidão é rainha.
E chorei. Não me lembro da última vez em que o fiz. Num hábito incessante de substituir a lágrima pelo sorriso, sob a esperança de que não transpareça o caos interior que se esbate sob aquele sorriso.
Tenho saudades tuas. E culpo-me pelo facto de não estares mais aqui.
Onde estás?
Por onde andas?
Porque foste? Porque partiste? Porque me deixaste aqui?
Foi no meio da solidão. E tal como surgiu, se foi. E o sorriso desenhou-se de novo. Porque amanhã a solidão continuará, mas com uma plateia que não sabe a qual peça verdadeiramente estará a assistir.