Devaneio #10

A pele desfaz-se em cinzas perante o calor do teu toque. Escama e rebenta perante a ausência. O silêncio torna-se uma melodia difícil de escutar e tudo dói.
Quero que deixe de doer. Quero que deixe de custar inspirar. Quero que...
Quero esquecer. O impossível. O doloroso. O... impossível.
Quero que a angústia desapareça. Não consigo tolerar mais. Quero fugir. Quero submergir e naufragar. E não derivar mais. Apenas ficar esquecida e fundida por entre mar.
Despeço-me. Porque o amanhã... o amanhã não irá chegar.

Devaneio #9

Aqui me despeço. De ti. De mim. De um esboço não definido, incorpóreo, e que apenas existiu por ser imaginado única e exclusivamente por mim.
Aqui me despeço. Das memórias mal interpretadas por mim. Dos momentos recordados indefinidamente, infinitas vezes, por mim. Mas, que no final de contas, nada significaram. 
Aqui me despeço.
Do tempo. Da saudade. Da tristeza desmesurada.
Estou louca. Só poderia estar a enlouquecer, numa inércia sentimental que me faz querer.. Não importa.
Interpretei um filme de indiferença como uma espécie de suspense romanceado, se assim se poderá dizer. E... mente tramada a minha.
Por isso, aqui me despeço. De uma mente demasiado fértil para momentos soltos e insignificantes, magnificados por uma poesia mal corrida que não foi escrita num papel timbrado, nem assinado com uma caneta de tinta permanente.
Aqui me despeço. Da minha insanidade. Dos fragmentos que, por momentos, me fizeram acreditar num final diferente, para um livro cujo o final já estava mais que escrito e re-escrito, lido e re-lido.
Aqui me despeço.
Contento-me a ser somente vestígio acéfalo para não voltar a sentir, a pensar, a imaginar. Contento-me em ser oca. Em não me permitir existir. Porque... é mais fácil. E mais sincero. E mais real.
Aqui me despeço.
De ti.
De mim.
De...

Devaneio #8

Desenhei a carvão os traços de uma tempestade. Símbolo do tremendo caos em que o silêncio me atirou e deixou algures num estacionamento perdida.

Não sei quem sou. Não sei sentir. Apenas me corre angústia num circuito fervido a fogo que me queima lenta e dolorosamente.

Não sei quem sou.

Habitando num planeta isolado, acompanhada pela solidão que destoa de um mundo colorido lá fora. Estou de luto. Por mim. Para mim. Comigo.

Porque... não sei quem sou. Não sei sentir. Tremendo caos silenciado e perdido no meio da multidão. 

Fénix