Devaneio #3

Resta uma terrível e tremenda angústia. 
Por entre desassossegos penosos em que a alma estrebucha e se recusa a penar mais do que o estritamente desnecessário. 
Irrompem silêncios que transbordam de uma terrível e tremenda... angústia.
Gostava de fechar os olhos. Deixar tudo para trás. Deixar a perda e o ganho e a mágoa para trás. E fugir. Deixar o pensamento. Deixar o tormento. Deixar esta terrível e tremenda... angústia.
Subitamente respirar custa. Subitamente aguentar o corpo e fazê-lo mover-se por entre corredores de rotinas inúteis custa. Subitamente esta terrível e tremenda angústia... custa.
E se, pelo menos, eu pudesse fechar os olhos.
Creio que se torna complicado descomplicar uma situação já de si em pouco ou nada descomplicada.
E se... eu desaparecesse... e para trás ficasse esta... terrível... e tremenda... angústia?

Devaneio #2



Sei que se... o volume estiver alto (demasiado alto), a voz for forte (demasiado forte), e as batidas e guitarradas forem irritantemente potentes (demasiado potentes), a mente desacelera, abranda, remexe.... e pára. E eu respiro. Fundo (não suficientemente fundo, mas fundo o suficiente para me afundar no silêncio que me ampara nuns braços nus, crus e gélidos).
Sei que se... o horizonte estiver longe (demasiado longe), o sol fraco (demasiado fraco), e o céu se deixar manchar por névoas congeladas de fragmentos de cinza e escuridão (demasiadas névoas), a visão turva e desampara a mente num embate seco e mudo num chão sem pouso, e estilhaça as réstias de desumanidade humanamente irritante e potente e gélida e...
Divago num texto ausente de sentido e tudo o que me resta é suplementar o ruído de fundo com a auto-colocação num palco imaginário onde quem aumenta o volume alto, perpétua a voz forte e toca as guitarradas irritantemente potentes sou eu, e me deixo fundir numa perfeita e somente só névoa enregelada ausente de mente e pensamento.
Deixo-me afundar. E a escuridão e ausência de barulho são o elixir que tanto precisava. Somente para que o demasiado seja um prego no meu caixão a que chamam vida.
Porque sei que se... Jamais respirarei fundo o suficiente para colapsar numa inexistência ausente de sentido.

Porque... Sei que se...

Devaneio #1

 Foi no meio da solidão.

A ver um qualquer filme. 

Sobre o amor. A vida. E a morte. O fim da vida. A mágoa e a dor.

E do nada desabou. A alma cedeu. A fortaleza desvaneceu. E o sufoco se ergueu.

Aquele aperto. Aquele nó na garganta. Aquela necessidade de respirar, mas cujo oxigénio não surge num espaço onde a solidão é rainha.

E chorei. Não me lembro da última vez em que o fiz. Num hábito incessante de substituir a lágrima pelo sorriso, sob a esperança de que não transpareça o caos interior que se esbate sob aquele sorriso.

Tenho saudades tuas. E culpo-me pelo facto de não estares mais aqui.

Onde estás?

Por onde andas?

Porque foste? Porque partiste? Porque me deixaste aqui?

Foi no meio da solidão. E tal como surgiu, se foi. E o sorriso desenhou-se de novo. Porque amanhã a solidão continuará, mas com uma plateia que não sabe a qual peça verdadeiramente estará a assistir.

No meio da solidão.

Fénix